Malu Vieira subia em árvores quando criança. Ia atrás de fruta, construía casa na copa com o irmão e os amigos, e gostava, antes de tudo, da sensação de ficar pendurada. Em 2011, ainda estudante de Letras na UFPE, aceitou o convite de uma amiga para uma aula experimental de tecido aéreo. Apaixonou-se na hora. "Acho que foi um reencontro com esse brincar, com meu corpo num lugar mais livre", ela lembra. Nunca mais parou. O circo estava no sangue.
O reencontro virou ofício em 2015, quando a professora saiu de licença-maternidade e passou as turmas para Malu assumir. Foi um choque. Ela vinha de uma formação sólida como professora de inglês, com currículo, parâmetro e alunos nivelados. No circo não havia nada disso: turmas multinível, corpos de idades e capacidades diferentes, nenhum mapa pronto. "Eu senti a necessidade de estudar o máximo que podia", ela diz. Fez todo curso que encontrou pela frente e, sem formação em saúde, começou a estudar anatomia e biomecânica por conta própria, tentando entender o que estava ensinando e por quê.
Foi nessa busca que ela topou com Applied Anatomy of Aerial Arts, de Emily Scherb, fisioterapeuta (PT, DPT) e aerialista com décadas de experiência, fundadora da clínica Pure Motion Physical Therapy, em Seattle. O livro, lançado em 2018 pela norte-americana North Atlantic Books, não existia em outro idioma. "Fiquei anos com a ideia na cabeça de que ele precisava existir em português."
Porque tinha que ser ela

Malu Vieira durante o lançamento do livro
Malu pensou em simplesmente levar o projeto a uma editora e deixar que outra pessoa cuidasse da tradução. Mudou de ideia ao perceber que “tinha que ser alguém de dentro do circo traduzindo, porque sem isso, mesmo pesquisando muito, a tradução teria problemas que só quem vive aquilo no dia a dia consegue evitar", ela explica.
O projeto de tradução levou de 2019 a 2023, até sair do papel pela Editora Ground com o título Anatomia Aplicada às Artes Aéreas - Guia Ilustrado de Força, Flexibilidade, Treinamento e Prevenção de Lesões. Na tradução, Malu teve o cuidado de preservar o tom da autora, que já havia pensado no leitor leigo em anatomia. "A autora sabia que estava falando com gente do circo, não só com profissionais de saúde, e teve esse cuidado no texto original. Eu quis manter essa forma de falar e pensava sempre nos meus leitores brasileiros: como conversar com eles sem perder a parte técnica", ela conta.
O resultado passou pela revisão técnica de Hammai Assis, fisioterapeuta, artista e professora de circo. "Ela tem esse olhar duplo: o texto precisava estar claro, mas também fazer sentido do ponto de vista da fisioterapia", diz Malu.
Um corpo que a ortopedia não aprendeu a olhar
Há uma imagem na sobre a coluna (p. 37) que Malu gosta de citar. Para explicar a anatomia da região, o livro usa a foto de uma contorcionista numa postura conhecida como “queixinho”. Malu explica que imagens como essas lembram aos leitores que são profissionais da saúde (ortopedistas, fisioterapeutas e outros) que o corpo circense opera num espectro funcionalidade que pouca formação em saúde no Brasil está preparada para reconhecer. "Acho importante que os profissionais de saúde tenham acesso a esse tipo de informação para não ficarem patologizando o corpo do circense desnecessariamente", diz Malu.
Pesquisas brasileiras sobre lesões em artes circenses ainda são escassas perto do que existe para o esporte de alto rendimento. Na falta de protocolo específico, Malu enxerga uma diferença de postura entre as duas pontas da saúde que atende esse público.
O prazer que vence a academia
Para quem nunca pisou numa escola de circo, o livro ajuda a resolver uma pergunta mais simples: por que tanta gente comum, sem nenhum histórico esportivo, decide um dia se pendurar num tecido? Malu já deu aula para gente de todas as idades, a maioria vinda de rotinas bem distantes do esporte. "A maioria das pessoas que chega para fazer aula de circo tem uma vida muito comum, com horas sentado em um escritório, e não tem paciência para fazer atividade física pela atividade física em si, em uma academia convencional", ela diz. "A musculação é um desafio para muita gente, porque você fica ali levantando peso sem enxergar o propósito naquilo. No circo a gente trabalha força, flexibilidade, coordenação motora e equilíbrio de uma maneira extremamente divertida."

Aula de circo: para todos os corpos e idades
Há também uma dimensão emocional que atravessa as aulas. Muita gente chega fora do padrão estético e carregando a ideia de que atividade física é punição. "Quando a gente traz a possibilidade de trabalhar o corpo no lugar do prazer, vira a chave", diz Malu. "Cada pessoa progride no seu ritmo." E a demanda física, segundo ela, é diferente de qualquer treino isolado de academia. "No aéreo é muito comum você trabalhar bíceps, abdômen e perna ao mesmo tempo, então a demanda é multidimensional. Além disso, vale ressaltar que, numa aula bem dada, o professor não vai extrapolar a capacidade do aluno: a demanda acompanha o que o corpo já tem."
Antes de matricular
Para quem está do lado de fora pensando em começar, ou já matriculou um filho, Malu reduz a pergunta sobre segurança a um roteiro simples. "A primeira coisa é entender como aquele espaço cuida da segurança: ver se tem colchão, em que condições está a estrutura como os aparelhos estão amarrados na estrutura, perguntar de quanto em quanto tempo é feita a manutenção preventiva", ela recomenda. O resto é observação. "Tem a parte de como você se sente naquela aula: se é bem acolhido, se percebe que a aula foi realmente planejada com atenção para todo mundo."
Para as crianças, há uma camada a mais que Malu considera um dos ganhos silenciosos do circo. "O circo trabalha muito a coletividade, o cuidado, a segurança. As crianças vão ganhando letramento em relação à segurança com o próprio corpo. O professor pede licença o tempo todo para tocar o corpo do aluno. "Isso vai introjetando na cabeça da criança que é assim que ela tem que ser tratada, que as pessoas não podem simplesmente colocar a mão nela."
Prevenção é palavra-chave para o artista

Uma das aulas de Malu
Malu também vê uma mudança de fundo por trás do interesse crescente dos artistas em entender o próprio corpo no ar. Muita gente que hoje pesquisa biomecânica circense chegou até ali depois de se machucar. É o caso da própria revisora técnica do livro, Hammai Assis, que entrou na faculdade de fisioterapia depois de uma sequência de lesões como aerialista. "Quando a gente entende que anatomia e biomecânica são ferramentas para trabalhar por mais tempo e com mais qualidade, o interesse pelo conhecimento se multiplica", diz Malu.
Talvez seja esse o efeito mais direto que Anatomia Aplicada às Artes Aéreas pode ter no circo brasileiro: a curiosidade como ponto de partida, e o aprofundamento que vem da paixão pela arte do circo.

